25/7/2010 13:00:16
É a grana, estúpido!

A
vitória do piloto espanhol Fernando Alonso no Grande Prêmio da Alemanha, após ultrapassar o brasileiro Felipe Massa que reduziu a velocidade por ordem da Ferrari, é o grande assunto do domingo e deverá rechear as conversas e resenhas esportivas da segunda-feira.
 

A corrida iniciou com Massa tomando a ponta, após largar atrás de Vettel e Alonso, que se engalfinharam na partida. O “segundo piloto” da Ferrari (atentem para as aspas, é importante para racionalizar na interpretação dos fatos a seguir) dominou a prova inteira, exceto quando parou para trocas de pneus, deixando o inglês Jenson Button na liderança. 

Quando faltavam 18 voltas para o final, um diretor da escuderia italiana falou pelo rádio com Felipe Massa, num inglês compassado e com cada palavra dita separadamente. - “Fernando (Alonso) é mais rápido do que você... Você tem certeza que entendeu essa mensagem?”, disse o cara. Massa reduziu e Alonso avançou para ganhar a prova. 

A indignação tomou conta dos adeptos da F1 e provocou um chororô na imprensa, principalmente na TV Globo, como se o fato fosse inédito em corridas e até em outros esportes. Como se a própria TV brasileira nunca tenha participado de esquemas para levantar a audiência do esporte no País, um senhor mercado para os anunciantes da F1.

Independente da ordem dada ao piloto brasileiro, é preciso lembrar que Alonso vinha mais rápido e que atrás dele, mais rápido ainda, vinha o Vettel, da Red Bull, concorrente da Ferrari e com dois pilotos com chances de vencer o campeonato, enquanto na equipe de Maranello sómente o espanhol tem chances.
 

Outro fato é que durante a semana inteira Fernando Aloson foi mais rápido e mais competitivo do que Felipe Massa, tanto que só perdeu a pole position para Vettel nos últimos segundos do treino de sábado, por milésimos de segundo. Foi anti-esportiva a decisão da Ferrari? Foi! Ficou feio para Massa e Alonso o resultado do GP? Ficou!

Mas, a grande pergunta é: foi a primeira vez na história da F1 e dos esportes que tal coisa aconteceu? E a grande resposta: Não! Vamos deixar de hipocrisia só porque o esquema ferrarista foi desvantajoso para um brasileiro, porque esse tipo de procedimento, de arranjar resultados em competições, acontece em todo ambiente, esportivo ou não.
 

Quantas vezes no Campeonato Brasileiro de Futebol nós vimos juízes arrumarem faltas e pênaltis para favorecer algum grande time ou prejudicar alguns outros para ajudar uma equipe de grande torcida, somente para colaborar com a audiência da competição?

E a antiga CBD, que comprou juízes e fiscais da FIFA para ganhar a Copa do Mundo de 1962, prejudicando as seleções da Tchecoslováquia e Espanha...
  O que ocorreu neste domingo no autódromo de Hockenheim não teve nada de ineditismo e nem terá sido a última vez a ocorrer. 

É preciso tirar os exageros das indignações, bem representadas nos comentários de alguns especialistas em F1, como Luiz Alberto, da Globo, e Fabio Seixas, da Folha de S. Paulo, este último chegando ao cúmulo da histeria chamando de “imunda” a vitória de Alonso. Terá sido imunda a vitória de Gerhard Berger no GP do Japão de 1991, quando Ayrton Senna o deixou passar na última reta?

Nos esportes, como na atividade política ou empresarial, os interesses financeiros superam os anseios lúdicos. Por isso que há tantas licitações fraudulentas, tantos laranjas nos governos e nos partidos, tantos resultados alterados e manobrados nas quadras, nos campos e nas pistas. Mas é incrível como só há indignação quando a coisa acontece nos esportes... Ninguém reclama tanto das safadezas cotidianas no Brasil.

A mídia brasileira precisa entender de uma vez por todas uma coisa: Felipe Massa não tem nem cacoete de Senna ou Piquet. Ele é apenas o segundo piloto da Ferrari, que tem em Fernando Alonso sua grande estrela, um craque que já ganhou duas vezes o título mundial, e que ainda mantém chances de brigar pelo tri contra os favoritos da Red Bull e da McClaren.

Se tiver que abrir para ajudar Alonso, Massa vai ter que fazer tudo de novo, pois essa é uma das funções de um piloto coadjuvante. Portanto, ao invés de choramingar por Massa e vomitar ódio contra Alonso, por que não gastam suas energias protestando contra resultados arranjados que todos os dias deixam para trás o fictício futuro do Brasil?