Blog , de
21/7/2010 12:17:14
Ainda Jorge Banda
U
m grande músico merece muito além do luto dos amigos e das mensagens e réquiens lacrimosos, tudo com data de vencimento prestabelecida pelo indefectível e perecível Mister Time. Por isso retomo o assunto da morte do guitarrista Jorge Macedo.
E retomo com o único intento de resgatar sua produtiva passagem pelos acordes da vida, restabelecer seu papel no relacionamento profissional e amoroso com a música, redesenhar a imagem amadora e “miltonsiqueirina” que muitos têm do maguinho.
Sim, porque Jorge Banda não era um talento autodidata como pensam alguns; toda aquela monstruosidade nos solos improvisados era fruto de uma técnica apuradíssima que ele jamais fez questão de exibir como badulaque acadêmico-musical.
Já disse aqui que ele unia a enorme capacidade de um ouvido sempre linkado na tonalidade das coisas com um notável conhecimento teórico, ao ponto de cifrar canções inteiras, na velocidade de um trago de cana, em guardanapos de botecos.
Estou imbuído, juntamente com meu mano Graco e com amigos como Raul Cruz e Moisés de Lima, de levantar algum material do trabalho de Jorginho em terras das Gerais e na sua passagem por Campinas e cidades do Centro-Oeste.
Desde os anos 90, quando meus encontros com Jorge Macedo foram escasseando, fruto das esquinas da vida que unem e distanciam até familiares, eu sei que discos foram gravados e arranjados por ele, em participações com bandas de rock, jazz e MPB.
Quando viveu alguns anos em Belo Horizonte, o guitarrista natalense não foi um mero observador da efervescência musical que tomou conta da capital mineira. Seus solos e ganidos elétricos eram sempre convocados a ilustrar apresentações em palcos.
A notícia da sua morte, estampada aqui na coluna e em alguns blogues culturais de Natal, já rebateu na galera belohorizontina, gente que cresceu debaixo dos arranjos de Jorginho e hoje brilha na cena musical de repercussão nacional e internacional.
Como Doca Rolim, o guitarrista que comanda a “cozinha sonora” (como diz Graco Medeiros, que o viu ainda pivete) da consagrada banda Skank. Ele jamais esquecerá o dia em que, apenas um garoto, tocou “Freeway Jam”, de Jeff Beck, com Jorge Banda.
Eram os anos 80 dos festivais de música de Beagá, que envolviam a juventude cabeça feita da cidade e muitos universitários, alguns da Católica, no bairro Dom Cabral, pertinho da casa de Graco Medeiros, que hospedava o genial maguinho de Natal.
Graco lembra de um moleque tocando guitarra no palco e que pediu para fazer um dueto com aquela fera cujos cabelos longos tinham mais largura que o corpo. No fim, Jorginho arrematou: “Esse boy ainda vai fazer um estrago da porra”. Era Doca Rolim.
Outro garoto aprendeu a admirar o guitarrista nordestino. Chamava-se Rui Montenegro e agora, homem feito e bem sucedido, registrou no Orkut e no Twitter seu pesar pela partida de Jorge Macedo. Rui é baterista da banda Creedence Cover, badaladíssima.
“
Muito triste ao saber da morte de Jorge Banda, se você tiver algumas fotos dele, me mande, que repassarei ao Boechat e ao Doca, sinto-me honrado por ter tocado junto com Jorge. Foi sem duvida uma ‘aula’ pra mim e todos
”. Eis o post de Rui para Graco.
Portanto, não precisa vestir a história de Jorginho com a fantasia desleixada de um aprendiz de Rimbaud, um Zé Limeira das sete notas a entoar acordes impossíveis. Debaixo da fina estampa hippie havia um músico cheio de técnica e conhecimento.
E que desde os primeiros dedilhados num violão jamais desejou imitar ídolo algum, fato que, por mais que não denigre os que assim o fazem, foi em Jorge Banda uma qualidade particular do seu caráter e da sua timidez. Ele nunca quis ser ninguém a não ser ele mesmo.
E assim foi grande e merece ser lembrado sempre.