40 anos de uma Ameaça Elegante

A longeva euforia nacional com o tricampeonato de futebol no México já havia diminuído nas ruas e quando entrou agosto eu voltei com gosto minhas atenções para os meus heróis de HQ e para as tardes ao lado do meu pai na loja de tecidos do Centro de Natal.
1970 foi um ano mágico em tudo, pelo menos para mim. A editora Ebal caprichara nos tradicionais “almanaques” de férias do Superman, do Batman, do Zorro e de Os Justiceiros. E ainda houve as figurinhas dos craques do Brasil e do mundo na Copa.
Eu tinha 11 anos, fazia o primário no grupo escolar Felizardo Moura, na avenida Mário Negócio, de manhã, e após o almoço pegava um ônibus para o Grande Ponto, para ficar sob a chancela de Seu Luiz Cleodon, o homem das moedas que traziam revistinhas.
Passei agosto inteiro zanzando nas calçadas da avenida Rio Branco, de cigarreira em cigarreira, perguntando pela revista número 1 do Fantomas, promessa da editora Ebal nos informes de segunda capa de quase todas as edições lançadas até ali.
Fantomas era uma espécie de anti-herói, criado no Japão em 1947 com todas as características do personagem brasileiro Garra Cinzenta, obra de Francisco Armond e Renato Silva em 1937 e que provocou plágios pelo mundo afora, inclusive nos EUA.
As TVs Tupi e Record exibiram seus desenhos no final dos anos 60, que fizeram algum sucesso entre meninos do Rio e São Paulo, enquanto minha geração em Natal ainda curtia a dramaturgia do rádio com Jerônimo, o Herói do Sertão, e a Ronda do Fantasma.
Colecionador contumaz de revistinhas de Nº 1, perambulei agosto inteiro em busca do exemplar de lançamento, conforme anunciavam as notícias da Ebal, sempre misturadas com a propaganda e programação das atrações da TV Record e da rádio Jovem Pan.
E como acontece até hoje, não há avião que consiga vencer a distância entre Natal e o mundo, posto que a primeira edição do Fantomas chegou por aqui em meados de setembro, depois do primeiro Karmann-Ghia TC a circular pela rua João Pessoa.
Foi uma aventura comprar a revistinha do Fantomas, já que a cada viagem sem êxito às bancas, eu invariavelmente torrava a moeda que meu pai me dava com picolés Big Milk e Zig Zag, com figurinhas do álbum Olé ou do chiclete Tremendão.
Agosto fez 40 anos do lançamento de Fantomas pela Ebal, mas a data para mim tem sabor de setembro, de primavera com frutos do passado, do ar com cheiro de pipoca e castanha torrada com açúcar na Rio Branco ou do café na calçada da Princesa Isabel.
Tenho comigo, bem conservada, como a memória daqueles dias, a edição de Fantomas e a primeira historinha “O Homem dos Mil Disfarces Conversa com os Magnatas do Mundo”. Calculo seu valor pela possibilidade de ter nela impressões digitais do meu pai.
Ao adquiri-la, lembro-me que o velho vendedor de cortes de fazenda - conhecedor profundo do morim ao tergal, do tafetá ao gabardine – exprimiu um certo conhecimento dos mimos gráficos que me ofertava. Achou Fantomas diferente das demais figuras.
É que na primeira aventura, escrita por Guillhermo Mendizábal e com desenhos de Ruben Lara Romero, o herói chamado de “A Ameaça Elegante” já emitia opinião sobre o fim do petróleo e a necessidade de uma energia alternativa para mover o mundo.
A história começa em Paris, com o seqüestro do professor Vert, que inventara a pastilha Vertina que dissolvida em água gerava combustível para automóveis e motores. A invenção era quase igual a do mossoroense Nicanor, com a participação da pastilha.
Fantomas salva Vert das mãos dos bandidos e sugere uma sociedade comercial para oferecer aos maiores industriais do petróleo um negócio que envolvia o uso da invenção com pagamento de royalties por 25 anos. Parecido com esses papos de Copa 2014.
Belo e contemplativo era o traço que compunha a figura de “Gêminis”, a gostosa secretária do Fantomas, integrante de uma equipe que tinha ainda o professor Semo, o robô sentimental C-19, o escultor Lindsay e o Dr. Weichmann.
Sempre que eu comprava uma edição Nº 1 de qualquer dos meus super-heróis, exibia aos amigos da rua Mário Lira como um grande troféu ou um tesouro descoberto. E também ao meu irmão, que naquele setembro desprezou minha compra. Estava triste com a morte do Jimi Hendrix.
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