
Assistí de novo, talvez pela trigésima vez, o clássico faroeste do diretor George Roy Hill, de 1969, com a espetacular presença da dupla Robert Redford e Paul Newman, ladeada pela beleza morena da atriz Katharine Ross. Um puta filme, atemporal.
Desses que deve provocar desejos em cineastas experimentais imaginando criar uma sequência possível, que mantenha o nível de atenção e prazer dos cinéfilos, como faz a velha fita com a canção “Raindrops Keep Falling on My Head”, de Burt Bacharach.
Eu sempre pensei numa outra linha de tempo, posterior ao congelamento da imagem final, com Butch e Sundance saindo do armazém de San Vicente, no interior boliviano, de armas em punho para, quem sabe, morrer no cerco dos homens do exército local.
Ora, se a própria literatura em torno da história real dos dois bandoleiros americanos aponta para um fim diferente de suas vidas em relação ao filme, quem poderá garantir-me, além do diretor e produtores, que aquele desfecho foi a morte dos dois?
A imagem parada de Cassidy e Kid, abrindo lentamente até subir os caracteres da ficha técnica, possibilita a qualquer um a alternativa para elaborar-se o roteiro de uma sequência, uma segunda película com as aventuras da dupla de bandidos-heróis.
A depender deste fã do velho bang bang, a onda de “crossover” nos roteiros dos quadrinhos que já invadiu Hollywood é deveras suficiente para estabelecer um pré-roteiro para, pelo menos, alimentar minha imaginação e o prazer pela obra.
Vamos, então, “crossovizar” a epopéia de Butch Cassidy and the Sundance Kid, no segundo filme que merece promover o primeiro à condição de grife do western. E comecemos o roteiro algumas horas antes da imagem congelada que encerra a narrativa.
A amiga dos dois amigos, Etta Place (a linda Katharine Ross), cuja vida real é até os dias de hoje um mistério na biografia da dupla, está voltando para os EUA num vapor. Lembrem-se da sua cara de tristeza por decidir separar-se dos seus amores.
Só que ela era, na verdade, Amy Robbins, a jovem bancária do século XX que em 1979 encontrara-se com o escritor H. G. Wells, quando este se deslocara no tempo e no espaço perseguindo Jack, o Estripador, por sua vez fugitivo na Máquina do Tempo.
Naquele comecinho de século, após idas e vindas pelo túnel do tempo, a moça se estabelecera numa casa do Wyoming, por sugestão de Wells para escapar da perseguição de Jack. Ali, conheceu Butch e Sundance, e se apaixonou pelo segundo.
Antes de embarcar no vapor, Amy percebe que seu amigo cientista veio à sua procura. Angustiada com o futuro dos outros dois amigos, ela narra o ocorrido até ali e convence H. G. Wells a voltar com ela para San Vicente e tentar ajudar a dupla encrenqueira.
O inglês chegou meia hora antes do garoto da mercearia dedurar à polícia a presença de uma burra com a marca de uma fazenda assaltada. Camuflou a Máquina do Tempo à esquerda do armazém em que os americanos se abrigariam do tiroreio.
Coberta por tecidos e palhas, a fantástica invenção ficou cercada pelas barracas da feirinha, Wells travestiu-se de soldado e foi o primeiro a posicionar-se na cercania do armazém, praticamente invisível para não ser atingido pelas balas de Sundance.
Após o ferimento de Butch e o diálogo travado com o parceiro enquanto carregavam os revólveres, Wells que ouvia tudo manobrou facilmente sua máquina, agora na companhia de Amy/Etta, sumindo por alguns segundos e reaparecendo sem a moça.
Enquanto os soldados se movimentavam cercando a praça, o escritor adaptava a chave de controle da geringonça, coisa que já havia desenvolvido antes para evitar surpresas de Jack, o Estripador, provendo o veículo da capacidade de transportar à distância.
Tudo calculado, quando Sundance e Butch correm disparando as armas, entram no raio de ação da máquina – Wells já pilotando-a – e ficam paralizados por alguns centésimos de segundos, até desaparecerem totalmente da visão e dos rifles dos militares.
Concedendo o desejo de Butch Cassidy, o cientista programou a viagem temporal para a Austrália, alguns anos antes do tempo boliviano, indo parar todos eles em 1880, onde os esperavam a dedicada Etta Place, ou, isto é, Amy Robbins, futura esposa de Kid.
A partir daí, começa pra valer a nova aventura da dupla, que naquele mesmo ano, em novembro, vai até Melbourne e invade uma prisão para libertar um irlandês admirado por Wells, condenado à forca, chamado Ned Kelly. Todos passam a ser perseguidos.
A versão deste suposto segundo filme casa ainda mais com as narrativas reais sobre a dupla americana e o ladrão britânico. As cartas assinadas por Butch, posteriores ao cerco na Bolívia, eram oriundas da Austrália. E faz-se a luz sobre o paradeiro dos restos mortais de Kelly, tão controversos no país da Oceania.
Acho que o fim do segundo filme seria a música de Bacharach e os amigos no interior da máquina de Wells sobrevoando o telhado futurista da Sydney Opera House. Lá embaixo, crianças em bicicletas festejam o Dia Mundial do Cinema de Ficção.