A Imprensa Defensiva

Meu filho caçula tem nome de artista, mas uma cabeça de enxadrista russo e sagacidade de general do exército americano. É um especialista em games de estratégia e não há barreiras e objetivos que ele não supere nas guerras simuladas do Playstation.
Desde que o mundo é mundo que as grandes logísticas de defesa não suportam os ataques constantes e com poder de fogo inesgotável, nem as estratégias corretas de combate. A cidade de Tróia foi invadida numa artimanha grega feita de madeira.
Talvez o maior símbolo de defesa de uma civilização, as Muralhas da China não conseguiram ficar invictas nas trajetórias bélicas das grandes dinastias. Nem mesmo ela resistiu aos exércitos da Mongólia e da Manchúria, apesar da sua grandiosidade.
O impetuoso Alexandre, o Grande, que conquistou impérios com suas infantarias invencíveis, foi derrotado por uma minúscula bactéria que lhe atacou o corpo, desprovido das defesas necessárias para conter tão simplório e invisível inimigo.
Napoleão, o general francês e não o poeta potiguar de Alexandria, conheceu em Waterloo o gosto amargo da derrota e das falhas defensivas que jamais imaginou em seu apogeu militar. E bastou o frio russo para vencer as defesas das tropas nazistas de Hitler.
Os clássicos filmes de faroeste abusaram de exibir as grandes jornadas do General Custer conduzindo sua cavalaria para dizimar os índios americanos. Era um estrategista do bacamarte e da espada. Foi vencido por Touro Sentado e Cavalo Louco na beira de um rio.
Não existe sistema de defesa impecável, nem nas guerras e nem nas batalhas ludopédicas sob os auspícios da FIFA. A defesa perfeita é um mito estatístico alimentado pela mídia esportiva, aquela ironizada no tiro certeiro de Paulo Mendes Campos.
Não é a defesa da seleção brasileira que é intransponível, como todos pensam e decantam. Difícil mesmo de ser superada é a atuação da nossa imprensa boleira que joga no ataque quando se trata de mitificar a zaga verdamarela do técnico Dunga.
Na presente Copa, os repórteres do tipo pacheco vomitam apologias à defesa nacional nas lacrimosas crônicas televisivas, como se a marca de dois gols tomados em quatro jogos fosse uma coisa de outro mundo, um ensinamento de Sun Tzu posto em prática.
Ora, se a zaga dunguista é essa coisa fabulosa, por que não se diz nada da defesa uruguaia, única entre as oito classificadas, vazada apenas uma vez na competição? E Holanda e Argentina, com 100% de aproveitamento e só dois gols nas suas traves?
Qual a diferença entre os dois gols tomados pelo Brasil e a mesma quantidade que passou pelas redes das outras seleções, como é o caso da Alemanha, considerada favoritérrima e também vazada apenas duas vezes em quatro jogos? Mesma coisa a Espanha.
Olhando todos os jogos da seleção brasileira nos últimos doze meses, entre junho de 2009 e junho do corrente, vemos que o time tomou 1 gol do Paraguai, 3 do Egito, 2 dos EUA, 2 do Chile, 2 da Bolívia, 1 da Tanzânia, 1 da Costa do Marfim e 1 da Coréia do Norte.
Não precisa o leitor ter o conhecimento enciclopédico do PVC ou a picardia secadora da Milly Lacombe para perceber que essa "ruma" de adversários que transpôs os paus de Julio Cesar não dá, somada, uma Inglaterra à meia-boca ou uma França jogando com as mãos.
É muito boa a zaga canarinho, reconheço, mas é preciso separar o desempenho descomunal de Lúcio e Juan em seus times de origem dos jogos sob o comando de Dunga. Não é o pachequismo midiático que vai anular os gols que o Brasil já tomou nos últimos doze meses.
E também não estou aqui dizendo que a defesa da seleção é ruim, estou apenas mostrando que os céus de Nova York estão sujeitos aos vôos e ataques terroristas. E se é para endeusar quem tomou 2 gols, junte-se à reza midiática as zagas das outras seleções.
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