
Luis Fabiano, o artilheiro do Sevilha, disse ontem em Johanesburgo que não tem a menor graça voltar para casa após um campeonato mundial trazendo “aquela chuteira de artilheiro da Copa e sem o título de campeão”. Não tem graça, ele disse.
E não tem mesmo, mas deveria ter alguma. É que na cultura da quantidade se sobrepondo à qualidade, ganhar sobre todo e qualquer aspecto está acima de tudo. Apesar da Copa ser um espetáculo, nem sempre a arte do gol supera o metal da taça.
Aliás, os termos copa e taça são sinônimos, sendo que o primeiro ainda tem a força de representar o ponto mais alto de alguma coisa, que bem pode ser o próprio mundo. E foi nessa inspiração que o evento maior do futebol foi criado pelos homens da FIFA.
Antes da criação da Taça Jules Rimet, disputada pela primeira vez no Uruguai em 1930 e vencida três vezes – e em definitivo – pela geração de Pelé, depois roubada e derretida no Brasil, uma taça já havia sido alvo de ladrões, ainda no século XIX.
Décadas antes da idéia de um torneio mundial de seleções, o mais importante campeonato do planeta era a FA Cup, que deu origem aos grandes eventos de hoje pela Europa, como Champions League, Copa da UEFA e Eurocopa. Era o ano de 1895.
A taça da FA Cup daquele ano foi carregada de uma vitrine em Birmingham, na Inglaterra, e o time que a havia conquistado no gramado, o Aston Villa, jamais a viu de novo. A própria Jules Rimet foi roubada uma primeira vez, também na Inglaterra.
Antes de começar a Copa de 1966, aquela de triste memória em que a seleção brasileira caiu na primeira fase diante do talento dos húngaros e da genialidade afro-portuguesa de Eusébio, a taça foi achada no mato londrino por um cãozinho chamado Pickles.
O primeiro jogador a levantar – literalmente – a Jules Rimet foi o capitão brasileiro em 1958, o zagueiro do Vasco Bellini. E o ato de erguer o prêmio nada tinha com comemoração, apenas uma gentileza para fotógrafos atrás da multidão de jornalistas.
Quem primeiro a recebeu das mãos dos organizadores da primeira Copa foi o uruguaio, também zagueiro, José Nasazzi, capitão no terceiro título mundial da Celeste (o Uruguai já havia vencido duas Olimpíadas, daí ter sido escolhido sede do mundial de 1930).
Na segundo Copa, em 1934, o ato solene de receber a taça foi de um goleiro, o italiano Giampiero Combi, consagrado na boca do povo como “Homem Elástico”. Assim como o atual goleiro da Azzurra, Bufon, Combi vestia a camisa da Juventus de Turim.
Quando a Segunda Guerra matou a diplomacia do mundo e abortou as Copas de 1942 e 1946, a taça viajou para ser disputada no Brasil, em 1950. O legado daquele evento dói até hoje na memória e na história do futebol nacional. E estigmatizou um goleiro.
Barbosa, o maior goleiro que o Brasil já produziu (além de Taffarel) ficou marcado com a culpa de um gol do uruguaio Gigghia, que concluiu jogada do cérebro da Celeste, Schiaffino, autor do primeiro gol e arquiteto do segundo. Obdulio pegou a taça.
Na Copa seguinte, 1954, ninguém com o mínimo conhecimento sobre futebol arriscaria dizer que o capitão e gênio da Hungria, Puskas, não receberia a taça Jules Rimet. A não ser os alemães, que conheciam a geração comandada pelo grande Fritz Walter.
Por pura estratégia do técnico Sepp Herberger, a Alemanha entrou com um time misto contra o super time de Puskas, Czibor e Kocsis, tomando uma lavada de 8 x 3. Mas na final, os titulares alemães fizeram 3 x 2 e festejaram a taça nas mãos de Fritz Walter.
Quando Bellini levantou a taça em 58, seu reserva, Mauro, não imaginaria que repetiria o gesto em 1962, graças a um fenômeno chamado Garrincha, que até fez chover e trovoar no Chile. Em 1970, Carlos Alberto foi o primeiro a beijar a taça.
De lá para cá, todo mundo beija o símbolo maior da conquista, de reservas a jornalistas, de massagistas a executivos de federação, até ditadores e presidentes de repúblicas. Até chegar uma final, entretanto, a taça é protegida como um quadro do Louvre.
Na África do Sul, diversas seleções chegam ao torneio com reais chances de beijar a taça. Alemanha, Brasil e Itália são sempre favoritos; a Argentina e França sempre correm por fora; e Inglaterra, Holanda e Espanha acreditam que a hora do beijo chegou.
Os espanhóis andam com a libido mais agitada em relação ao toque labial na taça, eufóricos com o momento da Fúria que vem jogando um futebol cheio de arte. Pior é que a Taça FIFA já foi beijada por um único homem, e de nacionalidade espanhola.
O cantor David Bisbal, intérprete do hino oficial da Copa 10 em sua versão em espanhol, não perdeu tempo quando se viu – duas vezes – diante da taça. Beijou na cidade do México e em Houston, durante o passeio mundial do troféu.
Na católica Espanha, como no Brasil, mitificam-se muito essas coincidências.