A crônica abaixo é do Mestre Armando Nogueira,
confeccionada para apresentar a antologia "Todos Juntos,
Vamos - Memórias do Tri", que lancei em abril de 2002,
pela editora Palavra & Imagem (RJ), na Livraria Argumento,
no Leblon.

Junho de 1970
Faz trinta e um anos. Já dá pra dizer que, considerando a vertigem do tempo no esporte, estamos falando de um passado quase remoto. Tinha eu, então, 20 anos de jornalismo e 44 de existência.
Não posso, porém, me queixar das traições com que a roda da vida costuma surpreender minha memória. Lembro-me bem de certos momentos que me ficaram de uma Copa que a seleção do Brasil converteu em epopéia.
Na antevéspera da estréia, chego eu, repórter, à concentração brasileira. O primeiro jogador que encontro é Tostão. Sóbrio, como sempre, ele me dá notícias do olhe recém-operado. Mal consigo fitá-lo. O olho é uma posta de sangue.
O doutor Roberto Abdala Moura, que tinha operado Tostão, me garante, na hora: “Ele vai poder jogar!” Zagallo também andava assustado. Tanto que chegou a levar Tostão pra uma conversa reservada com a Comissão Técnica.
O craque, com a transparência que Deus lhe deu, disse aos homens do estado-maior da seleção: “Eu entendo a apreensão de vocês com meu olho. Estou pronto pra jogar, mas acato a reserva, sem queixas”. O olho dele tinha sofrido, nos últimos dias, uma súbita hemorragia na conjuntiva.
Felizmente, era coisa superficial. Tostão foi aprovado pela comissão, o que, segundo ele me confessa, hoje, redobraria a sua confiança para jogar a bela Copa que acabaria jogando. Magistral!
O outro episódio que me impressionou deu-se na tarde do dia sete de junho. A seleção tinha acabado de derrotar a Inglaterra, então, campeã do mundo. A partida, nem tão bonita mas sumamente tática, transcorrera como se fosse uma final de Copa.
De um rigor técnico, de um vigor físico, de uma solidez mental realmente incomuns. Na euforia do triunfo, os fotógrafos brasileiros juntaram os jogadores no grande círculo, propondo uma foto da equipe em fila indiana.
Pelé, que estava do outro lado do campo, trocando camisas com Bobby Moore, deu um pique e, quando todos pensavam que a corrida dele era coisa de retardatário, eis que Pelé desmancha a pose, no grito, e reúne o time de novo, mas para uma fotografia rotineira: a defesa em pé, o ataque agachado.
Mais tarde, Pelé explicaria que a formação em fila indiana poderia dar a todos, inclusive aos jogadores mais jovens, a idéia de que a seleção já estava dando uma de campeã do mundo. Pelé assumia, ali, a liderança espiritual da equipe.
Vem o terceiro momento marcante. Clodoaldo estava jogando mal contra o Uruguai, na semifinal, em Gualajara. Zagallo decidiu substituí-lo. Acontece que entre pensar e agir, o técnico é surpreendido por um belo gol de Clodoaldo, empatando a partida: 1 x 1 a poucos minutos do intervalo.
Não teria sido nada bom que o 1º tempo tivesse terminado com vitória parcial do Uruguai. Uruguai, nosso velho verdugo. No vestiário, Zagallo não deu a Clodoaldo o menor sinal de que estava descontente com a atuação dele. Ficou o pensado pelo não pensado...
A final, contra a Itália, perdura na memória dos olhos como o glorioso epílogo de um sonho até hoje por mim tantas vezes sonhado; o indizível corta-luz de Pelé em Mazurkiewicz, o lenço do mesmo Pelé no goleiro checo os volteios de Tostão, enroscando num parafuso o zagueiro Bobby Moore.
Luminoso prelúdio de um gol consagrador: um passe-manteiga de Pelé, o chute cruzado de Jairzinho; mais adiante, a profusão de dribles de Clodoaldo uma tarantela! Destroncando quatro italianos, um atrás do outro; e por fim, a cena da celebração do tri-campeonato, no estádio Azteca, na cidade do México.
Sentado na tribuna de imprensa, maquininha Lettera 22 no colo, eu escrevia, em lágrimas: “E as palavras, eu que vivo delas, onde estão as palavras que não me socorrem na hora de contar que Tostão está sendo asfixiado nos braços da multidão em delírio? No campo, chovia tufos imensos de confete caídos de todos os quadrantes do estádio”.
Foi o mais belo poema épico que meus olhos jamais viram na grande aventura do futebol.
(Armando Nogueira)