
Parece que o Cosmo conspira em favor da vida e os ventos da sensatez sopram em direção ao continente que mais sofre a ameaça da perda dos grandes valores humanos construídos com dor e sangue na luta da civilização contra a barbárie.
Na mesma semana em que um partido de trabalhadores no maior país desse dito continente tentava escamotear a triste verdade de uma proposta contra a vida, eis que o mundo se une para impedir a morte de 33 operários enterrados vivos numa mina.
Na mesma semana em que a candidata do maldito partido do dito país do supracitado continente disfarçava seu apoio à prática do aborto, algumas mulheres humildes de Jaboticabal disputavam o direito e desejo de dar um lar a uma criança abandonada.
A operação de resgate dos mineiros na mina San José, no norte do Chile, e a ação das trabalhadoras do interior paulista para salvar um bebê recém-nascido encontrado numa caixa de papelão, são atos que redimem a humanidade por seus deslizes no planeta.
Não há distância de intenção e gesto nos dois casos. Mesmo que um tenha sobre si, além das toneladas de terra angustiando gente do mundo todo, a lente de aumento da mídia, tem o mesmo tamanho quando se mede ambos com a régua do humanismo.
Num mundo com claros sinais de decomposição orgânica e social, momentos como estes de solidariedade universal, no caso dos chilenos, e de instinto maternal, na história das mulheres paulistas, são resíduos de uma esperança que teima em renascer sempre.
Uma pequena caixa de papelão e uma cova coletiva de enormes proporções a 600 metros da superfície. As diferenças abissais no plano físico se equivalem na capacidade letal de ambos os espaços diante da frágil vida humana. 34 seres indefesos.
A sombra da morte que comprimia a pequenina criança na caixa era a mesma que sufocava a sobrevida dos homens na galeria soterrada. O que salvou ambos foi uma mesma força, a energia que mantém acesa a chama de humanidade em todos nós.
“Me disseram que as coisas não são assim, que tem fila de espera, mas eu vou fazer de tudo para ficar com ele”. Aspas da auxiliar administrativa Talita Caraschi, uma das mulheres que querem adotar o bebê abandonado na periferia de Jaboticabal.
“Há algo neste dia e nesta noite que nos convertem em únicos. Mais uma vez o relógio parece parar, tudo se paralisa. Não é uma notícia, é um milagre, uma odisséia”. Aspas do jornalista argentino Carlos Reymundo Roberts, emocionado na mina San José.
A reação das duas personagens nos dois distintos episódios é a porção solidária que arrebata homens e mulheres nas horas em que mais a angústia predomina, em que a fé de uma raça na perpetuação da vida exibe seu lado mais ecumênico e étnico-plural.
A última vez que pessoas de todos os continentes demonstraram expectativa diante da TV foi no aguardo da invasão de Bagdá por tropas americanas. Mas era uma espera marcada pela comprovação de um ato beligerante entre dois povos, uma guerra.
Desta vez, não. O mundo todo coube num pequeno acampamento chamado Esperanza, no meio de um deserto. A dura vida invertida na espera, onde cada mineiro resgatado era o mais precioso achado no ventre da mina, a vida voltando do pó do chão.
Foi uma faxineira, de nome Maria Aparecida, quem achou o bebê numa casa fechada com placa de venda. Seu instinto de zelo, por força da profissão, a fez mexer na caixa abandonada. Ainda bem que o destino quis que fosse ela, e não um animal faminto.
“Na máquina que não emperra / o homem reinventa a vida / no útero da Terra”, foi o meu hai-kai logo cedo na rede social do Twitter. E na manufatura do celulóide, das caixas feitas para presente, alguém inventa de desprezar a vida, num triste papel.
Meia noite no Chile, amanhecer na Europa, meio-dia na Rússia, início da tarde no Japão. E quando a madrugada avançou sobre o Brasil, ficou claro para cada um dos povos que lutar pela integridade de todos ainda é a mais bela missão da raça humana.
Em baixo do solo, as contrações da esperança; acima dele e de tudo, a vida. best online payday loan lenders